13 de jul de 2009

A Conferência



Convidado a fazer uma preleção sobre a crítica,
o conferencista compareceu ante o auditório
superlotado, sobraçando pequeno fardo.

Após cumprimentar os presentes,
retirou os livros e a jarra d'água de sobre a mesa,
deixando somente a toalha branca.

Em silêncio, acendeu poderosa lâmpada,
enfeitou a mesa com dezenas de pérolas
que trouxera no embrulho e com várias
dúzias de flores colhidas de corbelhas próximas.

Logo após, apanhou da sacola diversos "biscuits"
de inexprimível beleza, representando motivos
edificantes, e enfileirou-os com graça.

Em seguida, situou na mesa um exemplar
do Novo Testamento em capa dourada.

Depois, com o assombro de todos,
colocou pequenina lagartixa num frasco de vidro.

Só então comandou a palavra, perguntando:

— Que vedes aqui, meus irmãos?
E a assembléia respondeu, em vozes discordantes:

— Um bicho!
— Um lagarto horrível!
— Uma larva!
— Um pequeno monstro!

Esgotados breves momentos de expectação,
o pregador considerou:

— Assim é o espírito da crítica destrutiva,
meus amigos!
Não enxergastes o forro de seda lirial,
nem as flores, nem as pérolas,
nem as preciosidades, nem o Novo Testamento,
nem a luz faiscante que acendi…

Vistes apenas a diminuta lagartixa…
— E concluiu sorridente:
— Nada mais tenho a dizer…

pelo Espírito Valérium/Waldo Vieira
de “Bem-aventurados os simples”

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